Este Blog é um projeto de um livro que está sendo escrito aos poucos. Os capítulos mais novos vão surgindo aqui em cima. Os capitulos antigos estão mais lá para baixo.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

CAP 14 : O Despejo



Logo após a audiência, ratificados os depoimentos das testemunhas através de suas assinaturas e com a veracidade e consonância dos testemunhos confirmados pelo juiz, que nada encontrou de contradição na fala dos sabatinados, fez Teixeira de Pompeu emitir ordem de despejo contra Zigomute da estátua da Santa, como havia o juiz prometido ao Padre.



Digno de nota é descrever a paciência, a serenidade com que Zigomute recebera a notícia e a ordem de desapropriação da santa pelas mãos do Oficial de Justiça. Calmo encontrava-se antes do recebimento do veredicto, assim permaneceu depois.

A ordem de despejo dava-lhe três dias para que Zigomute desapropriasse a santa e arranjasse uma outra estadia. Do contrário, o poder de polícia do Estado sairia mais uma vez das abstratas linhas da Constituição para a realidade.
(foto: Carlos Sá)

Zigomute não questionou a decisão, não esbravejou, não se desesperou, como normalmente haveria de se comportar um inocente. Ao final do prazo de três dias continuava abrigado na santa.

A Polícia Militar então foi convocada para fazer valer a justiça. A fim de se garantir a segurança na missão de desapropriação, foram designados vinte policiais do Batalhão Especial de Polícia da Capital Teresina, todos devidamente protegidos com colete a prova de balas, capacetes, cacetetes, escudos, fuzis do melhor calibre, bombas de efeito moral e todo um aparato bélico costumeiramente empregado em todas as operações daquele batalhão e que só seria utilizado em situação extrema, assim determinou o comandante da missão, que fora antecipadamente prevenido pelo Padre Malaquias e pelo Juiz Teixeira de Pompeu do perigo que Zigomute representava para a sociedade oeirense. Na verdade, temia-se que Zigomute tivesse preparado uma resistência ao longo dos três dias de prazo que lhe foi dado. Sabia-se que ele tinha alguns seguidores fiéis, e estes podiam ser impelidos por Zigomute a resistir em sua causa à expulsão da estátua pelas forças públicas.

Quando a tropa especial fazia o seu percurso entre o alojamento e o morro da santa, toda a população saiu de suas casas para presenciar o cortejo. Os policiais como que eram vistos pelos oeirenses como heróis. Todos tinham o maior respeito e admiração pela instituição policial. Sobretudo os filhos da população de baixa renda, que, não tendo muita perspectiva, sonhavam um dia em ingressar na polícia ou talvez no exército. Vestir uma farda para melhor se alimentarem e para deixar as mocinhas oeirenses eriçadas como estavam agora pela tropa de elite da capital.

Ao se aproximar das adjacências do morro do leme, o comandante da missão solicita a Zigomute através de um alto-falante que deixe pacificamente a estátua da santa e que nesses termos nada sofrerá. Lá do alto Zigomute olha para baixo a observar toda aquela movimentação, um olhar sereno e calmo. Senta-se na extremidade do morro e acende um cigarro de palha.

Enquanto isso, o virtuoso Juiz Teixeira de Pompeu voltando seus olhos mais uma vez para o avolumado dossiê, com uma ponta de preguiça, resolve contudo estudá-lo para ver o que daquela bíblica documentação poderia tirar de proveito.

A primeira reação do juiz ao folhear o dossiê foi de surpresa. À medida que seus nobres dedos iam folheando lauda a lauda a documentação, o juiz ficara abismado e ao final de seis horas e meia seguidas de leitura atenta ele ficara perplexo.

O juiz encontrara de tudo no dossiê, menos uma única e mísera prova que fosse incriminando Zigomute. Em suas mil seiscentas e sessenta e seis laudas não havia uma página que concretamente condenasse Zigomute.

A primeira página do documento citava alguns versículos bíblicos condenando a prática de bruxaria e de adivinhação. Nas demais, o juiz encontrou frases de auto-ajuda, páginas e mais páginas de revista de horóscopo, cartas de baralho utilizadas na prática de adivinhação, uma lista de compras da instrutora de catequismo Dona Mariana contendo:

‘6 Kg de carne

6kg de batata

6 kg de feijão

1 módison’

e algumas avaliações escolares aplicadas por Dona Margarida no programa de alfabetização de jovens e adultos implantado com apoio da igreja, nas quais encontrava-se uma questão grifada com um marca-texto que indagava quem havia descoberto o Brasil.Todos os alunos responderam corretamente que fora Pedro Álvares Cabral e obtiveram nota máxima. Menos João Monte, que dera a resposta a seguir transcrita e recebera um zero:

“ Zigomute uma veiz disse que ninguém descobriu o Brasil e que nóis foi que tumama as terra dos índio. Mais eu num tumei não, eu nem nunca vi índio.”

O Doutor Teixeira de Pompeu não receava quanto aos depoimentos das testemunhas, pois que eram totalmente verídicos, mas que de forma alguma poderia anexar aos autos do processo uma mísera prova que fosse daquele dossiê. Se tivesse a certeza de que o processo ficaria exclusivamente sob a jurisdição de sua comarca. Mas receava de que o mesmo pudesse ser passível de recursos e levado a instâncias superiores. Estas poderiam questionar a ausência de provas materiais. Tudo isso poderia arriscar a imagem e a reputação do nobre juiz, que até então nunca fora questionado em seus imparciais julgamentos.

Raciocinado nesses termos, resolveu o douto Juiz de Direito cancelar a ordem de desapropriação da santa e arquivar o processo contra Zigomute.

Quando os policiais acabavam de subir as escadarias do morro do leme que davam acesso à estátua da santa para executar as ordens de seus superiores, já que Zigomute permanecera imóvel sem se entregar e sem dar resposta aos policiais, o comandante da missão deu uma nova ordem pelo alto-falante aos seus soldados:

--Abortar missão, repito, abortar missão!

Os policiais -- um dos quais ao retornar descendo as escadas tropeçou numa porca que atravessara-lhe no meio do caminho e saiu tombando escadarias abaixo -- retornaram deprimidos e frustrados da mesma forma que uma criança quando assaltam-lhe o brinquedinho.

E Zigomute fitava o final daquela cena.






domingo, 1 de junho de 2008

CAP 13 : Zigomute na boca do Povo



Depois das palavras proferidas pelo Padre Malaquias naquela missa, toda a religiosa população oeirense devota de Nossa Senhora da Vitória estava convicta de que Zigomute era culpado. Achavam que o Maltrapilho, ao invés de ter prevido que aconteceria alguma coisa ao padre, foi o mentor intelectual da "armação contra o mais importante membro da igreja". Bradavam pelas budegas e rodas de conversa que tinha o Zigomute arquitetado o plano com uma dessas "mulheres da vida". Ela teria feito o trabalho por alguns poucos trocados e, a favor de Zigomute, teria criado todo esse imbróglio com o nome do respeitado padre. Não sabiam citar o livro, os capítulos e versículos bíblicos que o condenavam na instância divina muito menos os artigos, alíneas e incisos do código penal que o enquadrava na instância jurídico-humana. Só tinham a absoluta certeza de que Zigomute era culpado e tinham que fazê-lo pagar pelo que ele havia feita com os valores éticos da igreja. Entre os frequentadores da igreja e os seguidores da fé cristã já era certo que Zigomute tentava contra a igreja. Além de "Molestar" a Santa vitória ao morar em seu ventre, ainda criava circunstâncias que punham em dúvida a moral da igreja.

Os religiosos começaram a organizar um movimento AntiZigomute e iniciaram pela panfletagem em praça pública. Distribuíam panfletos com os dizeres:

“Abaixo Zigomute!

Fora adivinho!

Deixa a estátua da Santa em paz!”

E saíam pelas ruas com terços nas mãos e de mãos dadas evidenciando a união do movimento e a repetir apaixonadamente em procissão e em voz alta os dizeres do panfleto:

“Abaixo Zigomute!
Fora adivinho!
Deixa a estátua da Santa em paz!”

E clamavam a Deus para que ouvisse suas preces.
E o Santo Deus não os ouvindo de imediato, resolveram então os organizadores do movimento pressionar o Padre para que tomasse alguma providência com relação ao profanador da Santa e da moral Cristã.

Apesar de ter consciência de que foram suas palavras que incitaram e deram início a todo aquele movimento, não pretendia o pio Malaquias que aquilo tomasse tamanha dimensão.

Movimentos como aquele poderiam chamar a atenção da imprensa estadual e por que não até da nacional. Repórteres bisbilhoteiros, sensacionalistas poderiam descobrir a real causa de tudo aquilo e a castidade do Padre Malaquias poderia ser colocada em dúvida.
É óbvio que o precavido Padre Malaquias desejava e lutava pela expulsão de Zigomute da estátua da santa, e quiçá da Capital da Fé. Mas pretendia e articulava aquilo de forma silenciosa, de forma a não despertar questionamentos por parte de intelectuais ou de quem quer que fosse. Suas palavras de repulsa a Zigomute proferidas na Missa e dirigidas aos fiéis da santa eram apenas para alertar e garantir a adesão dos devotos para tão nobre causa. Só não imaginava e não queria uma adesão tão fervorosa.

Com toda sua calma e sapiência, o Padre Malaquias apaziguou o movimento AntiZigomute prometendo aos fiéis resolver o problema pela via judicial humana, argumentando que não seria de bom alvitre colocar mais um embaraço nas mãos do atarefado Deus. Não que a causa fosse pequena e indigna da interveniência do Senhor. É que exatamente aquela poderia ser facilmente resolvida na Terra, pelas leis humanas, poupando de mais um fardo o tão fatigado Senhor Deus que a todo instante é solicitado para resolver os mais diversos problemas dos seus fiéis.

Foi então o Padre Malaquias ter com o amigo de infância e agora nobre Juiz de Direito da comarca de Oeiras, o Doutor Antônio Teixeira de Pompeu.

O Doutor Teixeira de Pompeu era tido por todo o jurisdicionado piauiense e por toda a população oeirense como virtuoso homem de princípios morais e religiosos, o que não haveria de se duvidar provindo de tão nobre família. Às vezes considerado duro em suas decisões, não deixava contudo de aplicá-las com justiça e honestidade, sempre respeitando a lei.

--Então Doutor Teixeira , vossa magnânima inteligência já deve prever o motivo de minha humilde visita.-- Com essas palavras, Padre Malaquias cumprimenta o Juiz e introduz conversa:

--Pois que sim meu caro Malaquias. Estava presente na Missa quando proferistes aquelas palavras, e minha esposa uma das organizadoras do Movimento Antizig...

-- AntiZigomute. Apressou-se o padre em completar a palavra, na dificuldade que teve o Juiz em pronunciá-la.

--Pois certo, AntiZigomute, minha esposa me pôs à par de tudo. Devo-lhe antes de tudo alertar-vos quanto à imparcialidade que me cabe nesse tipo de causa, pois que a imparcialidade é um dos princípios norteadores de todos os meus julgamentos.

-- Sim, sim, ninguém questiona isso Doutor.

--Assim dito e esclarecido, vamos ao caso. Deve ser do vosso conhecimento que um dos mandamentos da nossa respeitável Carta Magna e que doutrinariamente muito se discute se tal mandamento seria ou não cláusula pétrea, o que no meu entender de anos de experiência jurídica não tenho dúvida de que seja, é o da proteção absoluta à propriedade privada. Toda a nossa justiça tem como um dos pilares a propriedade privada, e convém a nós protetores da Constituição e da Justiça defendê-la. Pois bem, com relação à estátua de Nossa Senhora da Vitória cabe duas hipóteses, ambas favoráveis à vossa nobre causa. A primeira seria de que a estátua seria de propriedade exclusiva da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, sob a proteção de nossa paróquia e que, neste caso, a justiça garantiria sem mais tardar o despejo do invasor denominado Zigo...Zigomute, reavendo a propriedade da santa para a igreja como é de direito. A segunda trata-se de que a estátua seria um bem público ou de uso comum. Também neste caso cabe ação civil pública de despejo, já que a presença do invasor e profanador de santas causa obstrução para os devotos da santa que para ali se dirigirem e inclusive constrangimento pela horripilante visão daquele maltrapilho e pelo mau cheiro que deve exalar quando de suas necessidades fisiológicas. Esclareça isso ao Advogado-procurador da igreja e dê entrada no processo. Convoque testemunhas de acusação e também de defesa, já que vivemos num regime democrático, para uma audiência afim de que eu melhor possa instruir o processo, a qual imbuída apenas de função esclarecedora e instrutora, prescindirá da presença do infrator Zigomute. O desfecho dessa causa, posso afirmar-lhe, não há de tardar.

-- Claro, sim Doutor Teixeira . Estou muito agradecido pelos esclarecimentos. Trarei as testemunhas de que necessita e inclusive um dossiê que de uma vez por todas porá fim às criminosas, ao olhar de Deus e dos homens, atividades desse tal de Zigomute.

--Traga-me por favor.

--Que Deus o ilumine a uma sábia decisão.

--Amém.

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90 % de Daniel MMFe / 10 % de Thompson





sábado, 24 de maio de 2008

CAP 12 : Zigomute na boca do povo e do Padre







É noite em Oeiras. Um belo luar resplandece no céu da Primeira Capital, somente ofuscado pela iluminação artificial que protege das trevas em noites não enluaradas a Capital da Fé. Os casarões ao redor da praça onde se encontra a catedral ostentam sua bela arquitetura, perdendo em beleza apenas para a catedral Nossa Senhora da Vitória que, ao lado do Cine Teatro, se erguem no ponto mais alto no entorno da praça central. É noite de santíssima Missa. E é para lá que se dirige a mais pura sociedade oeirense.

Enquanto o santo Padre Malaquias e seus devotos coroinhas dão os retoques finais no altar com vistas a dar início à celebração, Zumira e seu marido Emanoel Abraão, acomodados próximo ao altar, presenciam um curioso diálogo que se estabelece entre duas castas senhoras sentadas bem à sua frente:


--Margarida, estais a ver os trajes pecaminosos daquela moçoila? Indaga Dona Maria quando avista uma jovem e bela moça vestida num minúsculo short e numa blusa que deixa seu maravilhoso busto ainda mais atraente;


--Estou sim Maria. É um ultraje! Tanto que o Padre Malaquias adverte essas moçoilas para que não adentrem a Santa Casa vestidas dessa forma!




-- A juventude está perdida. Rogo a Deus todo santo dia entremeando preces de perdão aos jovens por insolências desse tipo nos dez terços diários dedicados a Nossa Senhora que rezo. Por falar nisso Margarida, estás sabendo que a filha de Dona Mariana está grávida de três meses?

--Mulher, nem te conto. Não só estou sabendo disso, como sei também que o pai da criança é um daqueles drogados do...

E esse interessante diálogo entre as duas bondosas senhoras prolongou-se ao longo da celebração, tanto que nem se aperceberam de que a Missa já havia iniciado.

O piedoso Padre Malaquias conduzia com serenidade a celebração do Senhor e chegada a hora do sermão veio-lhe à mente a história de um tal Zigomute. Apesar do conhecimento de Zigomute ter chegado aos ouvidos oeirenses em sua maioria na forma de zombaria, pois as chacotas costumam difundir-se mais rapidamente e tão ou mais modificadas, alteradas e acrescentadas pelas más línguas do que as histórias contadas em tom de seriedade, o santo Padre Malaquias não se absteve de comentá-la. Havia poucas pessoas que não troçavam de Zigomute, e esses eram em essência João Monte e Pedro Bandeira. Após a citação de alguns capítulos e versículos bíblicos constantes da ordem do dia, o sermão se desenrolou nos seguintes termos:


_ É de nosso humilde conhecimento a história de um adivinho que se não me falha a memória, tem por denominação Zigomute.

A essa palavra, o coração de Zumira bate mais acelerado. Aliás, essa senhora, apesar de uma vida frugal e pobre a que fora obrigada a se submeter quando solteira, aparenta ter se acostumado a participar dos eventos em meio à alta sociedade, mesmo morando no Oitis, interior do vizinho município, Colônia do Piauí. Ela e Emanoel Abraão costumam participar de Celebrações Eucarísticas no seu município de origem e ao menos uma vez ao mês se dirigem à Velha Capital para participar da tradicional Santa Missa daquela cidade e agradecer pelas bem-aventuranças realizadas em sua fazenda pelo Senhor.

-- Senhores e senhoras puros de coração--continuou o padre--, eu, como missionário e protetor da fé cristã católica, dos princípios e valores morais da casta sociedade oeirense, tenho a obrigação de precavê-los e de advertir-vos quanto ao perigo que representa adivinhos desse tipo em meio a pessoas de bem como nós. É de vosso conhecimento o destino desse tipo de gente, que para os mais desavisados não é senão queimar nas profundezas do Inferno. Bem sabeis que as santas escrituras já previam em suas sagradas linhas o aparecimento de adivinhos sensitivos, que em realidade não passam de maléficos bruxos enviados pelo Anjo Mau. E ainda um desses, que ousa ultrajar Nossa Senhora da Vitória tomando como moradia sua bela estátua erigida em sua homenagem. Aonde deverão estar sendo feitas as necessidades fisiológicas desse Zigomute? Ah, senhores! É esse o destino que Deus reserva aos descumpridores de sua santa palavra.

Proferiu essa última frase apontando para um mendigo que se alojava à porta da esplêndida catedral barroca. E continuou:


--Esse pedinte tornou-se o que é hoje em virtude de seus maus atos, que se não praticou a adivinhação, mas com certeza coisa de igual feita ou pior aos olhares de Deus. Para aqueles devotos do Senhor e cumpridores de sua palavra, Deus reserva-lhes a glória, como é o caso da nobre família oeirense Teixeira de Pompeu, cujos integrantes são todos bons médicos, juízes, empresários, políticos e até mesmo, para a graça e louvor de Nosso Senhor, sacerdotes, Ministros da santa palavra como eu. O decrépito mendigo que vedes senhores, desobedeceu a Deus e agora vos atormentais com sua constante e horrenda prática pedintosa, desviando valores que poderiam ser melhor empregados no dízimo, contribuindo para o enaltecimento de nossa Santa Igreja.

A essas palavras, o mendigo, sem entender bulhufas de todo aquele eloqüente discurso, alegrou-se achando que o pio Padre Malaquias reservar-lhe-ia uma pequena parte das oferendas destinadas ao Senhor, e contentou-se a ficar chupando uma manga em fase de apodrecimento que foi-lhe cedida por uma santa senhora. Ao final do glorioso e extenso sermão, aproximou-se do mendigo uma porca que vinha sem dúvida farejando uma manga, já sem as duas orelhas e com início de bicheira numa delas. A porca estava suja, magra, e aparentava estar esfomeada. O mendigo sentiu pena e jogou-lhe um caroço de manga. A porca ficou a mastigar o caroço de manga e acompanhou o final do sermão do santo Padre, fitando-o com um balançar de cabeça e a entoar um grunhido humanamente negativo, com ar de reprovação.





CAP 11 : A Primeira Previsão



De forma a surpreender, Zigomute age com rispidez e não fala com Zumira. Seu orgulho falou mais alto e diante da ocasião em que vê Zumira com um filho de Manelabrão nos braços, Zigomute sente-se profundamente traído. Fixa os olhos no horizonte e caminha em direção ao matadouro. Zumira pára e olha para trás. Zigomute continua caminhando, vira a esquina e se dirige ao matadouro.

Pela primeira vez, Zigomute maltrataria um animal na hora da morte.
--Vaca do cão, Satanás! queta diabo! -- A vaca tenta escapar das amarras que a prendem ao pé da estaca no matadouro.

Zigomute, em tom de chacota com animal, à beira do descontrole, chuta sua cabeça. Os populares ao redor riem. A cena é cômica para quem vê, mas o animal com os olhos esbugalhados de desespero sabe que as intenções de Zigmute não são muito a seu favor. E antes mesmo de aplicar-lhe a machadada, zigomute esfaqueia o pescoço dela. Quando a vaca já derrama o sangue, Zigomute parte para os golpes de machado.

Terminado o serviço, as reses estavam todas quarteadas, assim como esperava seu dono. Zigomute recebe seu dinheiro e retorna a Oeiras imediatamente. Ter visto Zumira com um filho de Manelabrão, definitivamente não foi uma boa coisa para Zigomute.

Já em Oeiras, um dia após, Zigomute vê se confirmar uma previsão que tinha feito sobre o padre. Certa vez ele contara a alguns fiéis que se escondia algo podre por detrás da manto sagrado da igreja. Que algo revelador ia surgir envolvendo a igreja e o padre. Neste justo dia em que a igreja faz da missa uma forma de agradecer a Deus as boas venturanças dos agricultores, uma moça jovem percorre a cidade com uma criança que lhe acompanha os passos à procura de um Malaquias. Dizia que este seria o pai da criança e que ela não tinha condiçoes de sustentar a criança sozinha. A moça vinda de um sítio no interior nem desconfia que o Malaquias que ela procura é o padre que vai conduzir a missa especial daquele dia.



A tarde cai, a moça volta para casa sem ter êxito em sua busca. Advertida por alguns populares a moça desiste por enquanto. Já estava descreditada por muitos. Afinal, quem acreditaria que o padre Malaquias seria capaz de tal feito contra a igreja? No entanto, o boato se espalha pela cidade e chega aos ouvidos de Zigomute. Aquela seria sua primeira previsão. Apesar de ser impossível provar a paternidade, a igreja e o padre ganham um pequeno arranhão na sua imagem. É um ultraje se desconfiar da autoridade e da pureza religiosa de um padre em Oeiras. De uma forma ou de outra Zigomute acertou em sua previsão.




quinta-feira, 6 de setembro de 2007

CAP 10 : Os Brutos amam mais



Poucas coisas faziam Zigomute esquecer de Zumira. Tudo que ele fazia havia um pouco de propósito guardado nela. Apenas uma coisa era capaz de tal feito: o momento em que tratava de pôr fim à vida dos animais. Isto ele fazia com serenidade extrema. Naquela ocasião, no entanto, não conseguia se conter ao seu trabalho. Tudo que desejava era ver a face tórrida do seu grande amor. O sorriso que o fazia pensar em viver ao lado dela.

Ainda tratando de deixar a faca afiada para amenizar a dor do animal, Zigomute é interrompido pelo dono dos bois:

--Opa!

--Opa! Como vai o senhor? Tudo bem, mesmo? - Zigomute sentado no chão olhando para cima, com um cigarro na boca.

-- Vai matar o gado agora?

--Não. Vou não.

--Tá esperando o que, rapaz?

--Nada não. Só vou esperar o gado amansar mais. Eles estão meio espantados. Talvez seja porque estão me vendo amolar essa faca aqui na frente deles.

--Então porque não amola escondido?

(Oitis - PI / Clique Para ampliar)

--Tem razão! Vou ali pra cantina.

Um quarteirão distante dos gados, já com a faca afiada, zigomute senta-se à sombra do alpendre da cantina de seu zezé de deó. Pede um doce de buriti e água. Sua testa franzida faz alguns pingos de suor cair em cima do doce. Não estava fazendo calor, mas o pouco de esforço que havia feito em amolar sua faca já o fazia sentir cansado.

Zigomute não era lá um exemplo de pessoa disposta. Ele estava ali só protelando e adiando a hora de matar o gado. Já estava escurecendo. Alguns trabalhadores já voltavam da roça com enxadas e foices ao ombro. Todos cumprimentam aquele senhor de chapéu comendo doce embaixo do alpendre. É uma característica do povo do sertão. São hospitaleiros e gostam de cumprimentar-se ao se cruzarem pelas ruas.



Zigomute passa a mão à altura da boca para limpar farpas do doce que haviam restando em seus lábios. Baixa a cabeça, pega um pouco de água dentro do copo e continua limpando o grude do açúcar em seu rosto, olha pra frente repetinamente. Era o barulho de um carro passando ali, uma rural. Havia uma mulher dentro carro. Ledo engano! Ele procurava Zumira em todos os rostos femininos que passavam em sua frente. Zumira não aparecia.

--Zumira.. Zumira.. Zumira... Cadê tu, Zumira? cadê tu, peste? - Zigomute fala sozinho, enquanto pega o dinheiro pra pagar o doce.

Já no caminho de volta para o gado que lhe esperava, zigomute é surpreendido. Zumira aparece na esquina para a qual ele caminhava. Já Fazia muito tempo desde a vez que eles haviam se despedido. A fisionomia havia mudado um pouco, mas o jeito de caminhar de Zumira era único para Zigomute. Ela não estava sozinha, havia uma criança em seus braços. Os passos de zigomutes já não eram tão compassados. Sua garganta lhe dava um nó. Ela até então não tinha visto Zigomute. Ele continuava caminhando em sua direção, olhando para a criança nos braços dela, já imaginando que fosse filho dela com Emanuel Abraão. O Caminho entre os dois era um deserto para Zigomute. Ninguém mais existia ali. Nenhuma pegada no chão, nenhum cachorro latindo, nem o sol iluminava mais. Era uma eternidade.



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domingo, 5 de agosto de 2007

CAP 09 : Os Brutos amam mais

Continuação

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Zumira era um amor antigo que pertubava a calma do Zigomute. E nada mais além dela era capaz de roubar a frieza dele. Zigomute era feliz, com a exceçã0 da ausência de Zumira em sua vida. Não lhe importava viver da forma que fosse, sem comida, sem sono, sem amigos , sem afeto. Se Zumira existisse em um dia seu apenas, sua rotina estava completa, e nada mais importava. Ele vivia em função de encontrá-la em qualquer esquina, mesmo sabendo que era impossível viver ao seu lado, pois sabia que o valor de sua alma era facilmente comprada com alguns réis de trocado que sobrava no bolso de Emanuel Abraão. Zumira nasceu em berço de palha, de família pobre. E facilmente se encantava com demonstrações de poderio aquisitivo.
Foi assim que Zigomute a perdeu para Emanuel Abraão. E desta forma também que nasceu a aversão às riquezas capitais. Zigomute passou a ignorar o dinheiro e qualquer conforto que fosse capaz de ser comprado. Emanoel Abraão, de certa forma, havia comprado Zumira das mãos de zigomute com garantias de vida farta e prosperidade, sem, no entanto, oferecê-la a certeza de viver feliz.

As últimas palavras de Zigomute para Zumira, ao perceber que ela estava se entregando às investidas de Emanoel Abraão:

-- Fique longe de mim. Você não sabe que eu lhe amo. Por isso você está me perdendo. Manelabrão lhe apararece com ofertas de bom casamento, boa vida e conforto, e isso basta pra você esquecer tudo que nós vivemos. Nada lhe importa, a não ser a aparência de moça da sociedade. Eu sei que não posso lhe dar isso, então pode ficar com ele, se é isso que você quer.

-- Não é bem isso. Papai sempre falou que se você quisesse me assumir, já tinha arrumado um emprego, mas você num faz nada. E já tá ficando velho. Ele disse que eu não posso viver de amor. Meu marido tem que me assumir.

-- Mas eu num já lhe chamei pra morar comigo?

--Você quer morar numa casa de taipa?

--Você quer o quê mais? nós vamos viver feliz. O que precisa mais além de mim e você pra nós vivermos felizes? Eu num quero mudar sua cabeça. Eu só vou ser feliz com você, se você entender que não basta mais nada além de nós dois pra viver feliz. Não importa casa, dinheiro, nem nada. Agente podia até morar debaixo de uma árvore, se você quisesse.

--Eu sei... Eu gosto disso em você, mas minha família não quer isso pra mim...

--Mas a sua felicidade é fazer a vontade de sua família? Você vai ser feliz assim?
Então tá. Faz de conta que num teve nada entre nós.

Zumira baixa a cabeça e não ver outra saída a não ser abdicar do seu amor e satisfazer a vontade de seu pai e sua mãe, afinal ela era uma menina do interior. Não sabia lhe dar com essas situações. A experiência dos seus pais dominava completamente suas emoções. Ela não sabia que estava disposta a trocar a felicidade pura pela felicidade aparente propiciada pelo dinheiro. E foi assim que ela se despediu de Zigomute. Baixou a cabeça, deu-lhe uma flor branca de um arbusto e um beijo na face. Era o sentimento mais puro ali se entregando aos prazeres capitais. Ela estava certa que sua vida confortável ao lado de Emanoel ia ser suficiente para ser feliz.
Zigomute não recebeu a flor, apesar de ter sentido do fundo de sua alma a pureza do gesto de Zumira.
A partir desse dia ele prometeu que ia rejeitar qualquer benefício que o dinheiro trouxesse. Ia viver apenas com o que fosse necessário. E quem quer que seja que se submetesse a viver com ele , havia de ser daquela forma.

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Continua em pouco tempo..




sábado, 4 de agosto de 2007

CAP 08 : Os Brutos amam mais



Era uma sexta feira de outono*, a porca já havia escapado da morte mais uma vez. E agora lhe haviam arrancado a outra orelha por pura maldade. Ela vivia na rua desde que teve a orelha arrancada pela primeira vez. Dois meses depois, Zigomute é novamente convidado a ir fazer um serviço, no interior desta vez. Haviam 6 reses a serem abatidas naquela noite e a necessidade de mais um trabalhador para ajudar na matança madrugada adentro. Alguém foi bater à porta do zigomute para chamá-lo a executar o serviço e ele não havia de recusar porque as reses o esperava num lugar particularmente especial, o Oitis, um vilarejo a 25 quilômetros da colônia.
Tratava-se do lugar onde zigomute havia conhecido Zumira, uma morena de cabelos lisos de tal forma que escorria pelos ombros, refletindo a luz feito seda. Olhos grandes, pescoço cumprido e lábios pequenos que deixavam seus dentes brancos bem evidentes quando sorria. Há 10 anos Zigomute não via Zumira. Aquela era a oportunidade de revê-la, ou pelo menos tentar. Não lhe custava nada. Em contraponto, não era costume de Zigomute trabalhar em outros lugares, a não ser pelas cercanias bem próxima a Oeiras, nada que fosse impossível ir no lombo de um jumento.

Já no Oitis, Zigomute é apresentado às reses amarradas em estacas à espera do golpe final. Mortas já estavam há muito.Não lhes haviam alimentado há dois dias. A sede já não as deixava com saliva na boca. Zigomute sente pena, mas aquele era seu trabalho. Com a cabeça em Zumira, Ele pergunta a alguém próximo sobre notícias dela:

-- Tu sabe quem é zumira aqui? -- em tom baixo, olhando para o chão.

--Sei sim! Quem num conhece Zumira aqui?! --O menino de quinze anos responde. Zumira era a musa da puberdade naquele vilarejo, e havia de ser daquele garoto também, apesar de 20 anos mais velha.

--Ela tá morando por aqui perto?

--Tá.. O senhor é parente dela?

--Não. Ela é uma velha conhecida minha.-- ainda olhando pro chão, raspando a faca numa pedra de amolar.

--Ela se casou com manelabrão.

O nome era Emanoel Abraão, o fazendeiro mais abastado daquele lugar. Como era de se esperar, as moças bonitas procuram um bom casamento. Elas nascem com beleza e morrem com dinheiro.

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*No piauí existem apenas verão e tempo chuvoso. Outono seria a época que as folhas caem.

Continua em pouco tempo..





domingo, 22 de julho de 2007

CAP 07 : A saga da porca continua



Sociedade e famílias à parte, a vida da porca de Zé Talo estava em jogo. Na recusa de Pedro Bandeira e João Monte de executar o trabalho, Zé Talo se viu obrigado a ele mesmo fazer o serviço. E nunca tinha feito isso, mas aquela era uma oportunidade de dinheiro muito fácil. Ele sabia como por fim à vida da porca. Bastava um tiro na cabeça e o serviço estava encaminhado. O tratamento das vísceras, do couro e os cortes ele ia fazer de forma arriscada, colocando a perder a carne macia da porca.

O primeiro passo era amarrar a cabeça da porca à estaca deixando-a em pé com os pés desamarrados para facilitar a altura do tiro a ser disparado. A essa altura a notícia da morte da porca já havia se espalhado pela vizinhança e em pouco tempo Zé Talo se via rodeado por uma quantidade relevante de crianças curiosas, de pés descalço. Muitas delas apreciadoras do velho e bom barro. Seus buchos denunciavam. Era o evento da semana, ou do mês talvez, bem alí na frente delas. O dia estava garantido. Já havia formação de movimentos pró-vida-da-porca contestando que a morte seria muito cruel. Zé talo não dava a mínima importância às contestações, afinal, a maioria ali queria mesmo era ver a pobre da porca sendo massacrada. Nesse tempo, Zé talo ouvia as gargalhadas vindo das crianças a cada nó que ele apertava na cabeça da porca, e o animal respondia com um barulho estridente de insatisfação e previsão do seu futuro imediato.

João monte e Pedro bandeira não participam do evento, nem ajudando, nem assistindo. Não queriam ver o pedido do Zigomute sendo contrariado bem na frente deles sem que possam fazer nada.

--Rosáro? -- Zé, autoritário, depois de ter acabado de amarrar a cabeça da porca na estaca..

--Oi, Zé!? -- Resposta imediata.

--Traz a espingarda.

Em pouco tempo, Zé estava com a espingarda na mão. Ele já se sentia o personagem principal daquela cena. Era inegável que as crianças o tinham feito assim naquela hora. Ele era bruto e mal humorado, mas quando experimentava o sabor de arrancar o sorriso do rosto de uma criança ele se transformava. E a essas horas já tinha perdido o foco do que ia fazer e estava bem melhor atuando do que se preparando para matar uma porca gorda e escandalosa.

Desconcentrado, Zé aponta para a cabeça da porca, respira fundo segura a posição. Definitivamente ele tinha percebido, em seus 54 anos de existência, que não era realmente um homem bruto e selvagem. Tentava parecer assim para manter uma posição de respeito das pessoas em relação a ele. Zé já não tinha coragem de apertar o gatilho e pôr fim à vida da porca, mas tinha que se manter firme para não tremer a arma em sua mão e continuar sua boa fama de homem bruto e mal humorado. Ele não ia se desmoralizar na frente de uma dúzia e meia de crianças. Já se prolongando o momento do tiro e aumentando a tensão, Zé se aproxima um pouco mais da porca:

--Sai de perto , menino!

Se aproxima mais um pouco, fecha os olhos discretamente e aperta o gatilho. E ainda de olhos fechados, a sequência que ele ouve é um "grito" enorme vindo da porca, vários gargalhadas vindas das crianças ao redor e uma correria que se dá início naquele momento. Ele abre os olhos. e o que vê é a porca, já sem uma orelha agora, encabeçando a correria com aquele punhado de menino atrás . A bala bateu na corda e arrancou a orelha esquerda da porca. O animal desce a rua mutilado e desesperado seguido pelas crianças. Zé talo observa de longe sem ter noção que tinha proporcionado uma das maiores diversões dos últimos tempos para a molecada.





sábado, 21 de julho de 2007

CAP 06 : Um pedaço de Zigomute, um pedaço de Dona Hosana...um pedaço de algo mais.



Zigomute tinha profunda admiração por Pai Bertulino. Aliás, considerava-o como um pai, e justamente assim o tratava. Entretanto, ninguém nunca ouviu falar na existência desse senhor. Ninguém, exceto Dona Hosana de Seu Gerson, uma senhora já bastante velha e caduca com seus quase oitenta anos de idade, que morava logo na entrada do bairro Rosário, num casebre humilde, sem reboco, com telhado velho, cheio de goteiras.


Dona Hosana gostava de se sentar à tardezinha na calçada de sua casa após tê-la varrido com uma vassourinha de bruxa torta, numa cadeira de balanço toda remendada de espaguete de palha desfiado. Todos os dias, antes que o sol se fosse, ela se sentava ali, tomando seu bendito cafezinho de todas as tardes, espantando as galinhas que ciscavam o esgoto que ali passava e olhando o povo passar na rua rumo à Praça do Coreto pra ver a banda tocar. De vez em quando juntavam uns vizinhos às calçadas dela para ouvi-la contar histórias. D. Hosana gostava de contar histórias. E as pessoas gostavam de ouvi-la, apesar de muitas vezes acharem bobagens algumas coisas que a velha falava, dada a sua notória caduquice:

-- Minha fia... Veja bem! Olhe! Me diga o que é aquilo ali?

-- Aquilo o quê, Dona Hosana? -- pergunta Joaninha, já sorrindo da caduquice e cegueira da velha.

-- Aquele negóçu se mechenu ali... é uma vaca?

-- É não D. Hosana -- Joaninha responde sorrindo. -- Ali é um pé de pranta, D. Hosana.

-- Ahhh! Pois eu pensei qui era um jumento, minha fia – sorri D. Hosana de sua própria cegueira --esses dias um deles quase esbarra em mim aqui, muié... -- completando.

-- Ali num era um jumento, dona Hosana. Era uma porca -- Joaninha caindo na gargalhada.

Joaninha tinha 16 anos e era a filha mais moça da finada Maria Preta e irmã de mais 4 mulheres. Quando em vida, D. Preta ajudara muito a velha D. Hosana, por conta de seus problemas de velhice: reumatismo, catarata dente outras complicações, fruto da idade avançada. Joaninha, portanto, tratava de cuidar de algumas tarefas desempenhadas em vida pela mãe, a fim de poupar D. Hosana de esforços impróprios à sua idade.

Enfim, numa de suas histórias, D. Hosana havia relatado sobre a história de Zigomute. A verdade é que, todos (ou quase todos) em Oeiras conheciam ou já tinham ouvido falar no “homem do morro”, mas sua vida era um mistério. As história e estórias a respeito de seu misticismo e de seus supostos poderes sensitivos galopavam de boca-em-boca, de ouvido-a-ouvido, porém ninguém sabia de onde aquele homem tinha vindo, por que morava na estátua da Santa, entre outras dúvidas. Alguns, como é de se esperar na conhecidíssima “terra dos loucos”, o consideravam apenas um louco varrido. Mas D. Hosana o conhecia sim. E foi da boca da velha senhora que saiu o nome daquele que cuidou do pequeno Zigomute:

-- D. Hosana... -- pergunta, curiosa, Joaninha. – ...a sinhora já ouviu falá no doido que mora lá na estáuta da santa do morro do Leme?

-- Zigomute?!! – em tom de interesse - ...já minha fia. Ele morreu??.

-- Não, D. Hosana! – responde Joaninha, e complementa: -- É que todo mundo fala um monte de história dele, mas eu nunca ouvi dizer de onde ele vêi e quem é os parente dele.

-- Zigomute, minha fia, é fíi de Seu Bertulino. Cuma é?!... – meio confusa –: “Pai Bertulino”. Era assim que ele chamava o véi Bertulino. – relata D. Hosana a Joaninha.

-- E daonde ele é? Digo, Zigomute, daonde ele é?? . -- continua Joaninha, ainda curiosa.

-- É daqui mermu, minha fia. -- responde à última (mas não única) pergunta de Joaninha, D. Hosana.

Após um suspiro tenro e em silêncio, com o olhar fitando, nos dedos enrugados dos pés, um ponto longínquo de sua memória viva, Dona Hosana encerra a conversa, sobre o pretexto de estar bastante cansada. Um cansaço instantâneo, nascido de uma hora pra outra, no meio da conversa. Acontece que Joaninha estava acostumada a adentrar a madrugada em delongas narrações com a velha. Ficava surpresa por D. Hosana estar se retirando ainda tão cedo para dormir.





CAP 05 : Os princípios Oeirenses



Na verdade, algumas poucas pessoas daquela cidade enxergavam o zigomute como um homem de caráter e bons valores. Como um homem respeitoso e de princípios extraordinários. Para os demais, Zigomute era um rabugento, sem família, sem princípio, sem meio e sem destino. E isso se agrava em se tratando de uma cidade onde todos se conhecem e cada família se esforça ao máximo para mostrar à sociedade que são um núcleo feliz e bem sucedido, mesmo que tenham que comer um feijão de terceira com uma carne borrachenta no almoço para poder completar o carnê da Tv de 29 e colocar gasolina no carro financiado em 60 meses em uma concessionária em Teresina.

E aí se observa que quem tem mais coração é quem não tem dinheiro de jeito nenhum.Fazendo a ressalva daqueles mais abastados que ainda fazem boas ações aqui e alí, mesmo que seja pensando em eleições futuras. Nesse contexto a igreja e o padre entram como uma espécie de sub governantes da cidade. Em um lugar extraordinariamente religioso, essa instituição exerce uma liderança considerável, chegando a liderar o boicote a alguns artistas que consideram subversivos. E aí matam de fome aqueles precisam de arte para viver e constróem moradias castelescas para o bispo.

Foi nesse contexto social que o Zigomute cresceu, observando a hipocrisia, sentindo em suas vísceras o desprezo e a vista grossa da sociedade. Sendo um cachorro domesticado sem pai e sem mãe vivendo junto de uma alcatéia de lobos selvagens.

Zigomute tinha parentes que só ele conhecia. Quando alguém o perguntava sobre seus pais ele citava nomes de pessoas que ninguém por alí tinha ouvido falar antes. E quando certa vez perguntado sobre seu ofício, quando e com quem havia aprendido ele respondeu que a necessidade foi quem o ensinou.

    --Não me refiro à necessidade de ganhar dinheiro. Meu primeiro animal foi um gato. Eu não me aguentava mais em pé. Julguei necessário que aquele gato teria que morrer por mim. Eu poderia continuar a missão dele se ele confiasse em mim esse propósito. Mas estava quase certo que a missão dele era passar na minha frente naquela noite de são joão. A fogueira já estava acesa e a fome não me deixava ir atrás de comida. Talvez eu tivesse desmaiado alí mesmo, mas o gato veio procurar aconchego perto de mim e da fogueira. Minha faca passeou suave ao redor do seu pescoço. Matei minha fome e prometi que ia fazer jus à vida que ele deu por mim.

Seu Bertulino teve algum papel nesse místico que o zigomute cria em torno da natureza. Ele era citado vez ou outra pelo zigomute quando sob efeito da cachaça.






quarta-feira, 18 de julho de 2007

CAP 04 : A Saga da Porca



--Vai tu primeiro -- João Monte sussurando para pedro bandeira.
--Não. Vai tu.

E o empasse determina que os dois permaneçam do lado de fora.
Zigomute olha para a porca, já entendendo a recusa implícita dos dois rapazes. Ela ainda continuava fazendo bastante barulho.

--Desamarrem a porca e levem ela daqui -- diz serenamente o Zigomute.

Havia um ar de mistério em torno do zigomute sobre o quanto ele era capaz de interpretar a natureza. Alguns naquela cidade guardavam um certo respeito sobre esse dom dele, mas a maioria fazia chacota e duvidava que um maltrapilho analfabeto que mora em cima do morro do leme fosse capaz de pelo menos saber se as nuvens escuras estão carregadas de água.

No momento em que mandou desamarrar a porca, Zigomute parecia ter lido o desespero e sofrimento imenso nos olhos dela. Ele acreditava que os animais deviam cumprir uma função em vida. E naquele íntimo momento entre a porca e ele , notou que não era a hora dela morrer, nem muito menos servir de alimento aos humanos, mesmo que para isto ele tenha que perder o dinheiro do serviço que já não andava tão disponível nas últimas semanas. Aquela não era a primeira vez que o Zigomute dispensava o trabalho.

--Desamarrem a porca -- Zigomute repete.
--Ma, mas Zé ta talo tá preeeeecisando da porca hoje. A feira tá sem carne desde cedo da manhã-- João pondera, num esforço enorme que os gagos estão acostumados a fazer para falar quando estão nervosos.

Pedro bandeira e João costumam fazer alguns bicos, e vez ou outra eles trabalham para Zé talo, um feirante mal humorado que trabalha com carnes. Zé talo tinha decidido não ir trabalhar aquela manhã, mas ao passar em frente à feira um amigo avisa que o carro que trazia a carne da colônia,uma cidade vizinha, distante a 20 Quilômetros de oeiras, havia virado na subida da ladeira que dá acesso à cidade e todo óleo do tanque havia derramado em cima da carne. Era a oportunidade que Zé Talo tinha de vender a porca Gorda que ele criava em seu própio quintal.

--Desamarrem a porca, levem ela de volta e peça que Zé talo não mate -- mais uma vez Zigomute insiste.

Pedro Bandeira e João não tinham o que fazer a não ser obedecer. E assim fizeram, desceram o 172 degraus com a porca em suas mãos e caminharam até a casa de Zé Talo a um Quilõmetro e meio dali. Virando a esquina da rua de Zé Talo eles avistam aquele senhor de chapéu de palha embaixo do pé de oitis numa cadeira de balanço. Era ele mesmo, Zé Talo.

--Mas rapaz, num tou dizendo mesmo. Eu num mandei vocês me voltarem aqui com essa peste quarteada. Será possível?
--Não seu zé -- João responde -- nois foi lá, mas Zigomute disse que num era pra matar a porca não.
--E ele é o dono da porca, por certo? --Zé talo já com a face rosada-- essa besta-fera é minha, a feira tá sem carne e eu vou perder o dinheiro da semana.
--Mas num é culpa de nois não, seu zé -- pedro bandeira ameniza.
Zé talo já se contendo:
--Tá bom. Amarra essa peste aí no pé de pau. Vocês num querem fazer o serviço não?
João Monte responde imediatamente:
--Não. Zigumute pediu pra deixar ela viva e nois num faz esse serviço não.
--É! É melhor num fazer não -- Pedro bandeira complementa.

Talvez, por ali ao redor do morro, Pedro bandeira e João Monte fossem as únicas pessoas que tivessem algum respeito em relação ao Zigomute.







domingo, 15 de julho de 2007

CAP 03 : A Mórula II



A serenidade no rosto do Zigomute é um reflexo das manhãs pacatas de céu azul oeirense se preparando para a torridez do meio dia. E nesse tempo, as diversas classes de economia desenvolvem suas atividades. O banco trata de receber os acúmulos da burguesia, os feirantes vendem verduras, o armazém paraíba, bicicletas e seu Zé talo... Bem, seu Zé Talo é observado por dois rapazes sentados embaixo de um pé de oitis. Com uma monark barra circular vermelha ao seu lado, Zé Talo amarra um porco numa cerca de estacas grossas num terreno ao lado de sua casa. O animal mostrava impaciência com a corda atada aos seus pés e Zé Talo mostrava-se já impaciente com a impaciência do porco. Depois de amarrado, o porco ainda fazia barulho.

Zé talo grita :

--Rosáro? traz uma manga daquelas que eu trouxe ontem da roça. Uma bem madura.

--Já vai, Zé.

Rosário dá a ordem:

--Leva alí, menino, uma manga pro tcheu pai!

--Já vai, mãe.

--Agora! Que Zé tá trabalhando!

--Tou indo.

Já com a manga na mão, Zé aproxima-se dos dois rapazes:

--Eu preciso que vocês me façam um serviço.

Prontamente, um dos rapazes responde:

--Agente não mata porco não, Seu Zé!

Zé Talo, com uma das mãos ocupada na manga e a outra a tirando uma nota de 2 Reais do bolso, com os lábios amarelados e alguns fiapos da manga remanescentes entre seus dentes:

--Num é pra vocês não, rapaz...

E depois de mais uma mordida na manga ele define:

--... É pro Zigomute! Peça que ele me faça esse serviço.

Os rapazes apanham o dinheiro e saem na marcha pela cidade com o porco a tira-colo fazendo zuada rumo ao Morro do Leme.

Chegando na majestosa escadaria com seus 172 degraus, os rapazes olham para cima e percebem que dois Reais é uma quantia muito pequena para tal atividade. Mesmo assim prosseguem. De dentro do seu recinto, Zigomute já ouve os gritos de desespero do porco juntamente com as maldições que os rapazes rogam em Zé Talo por tê-los pago tão pouco.


Ao aproximarem da Santa erguem a voz:

---Seu ZIGOMUTE?!!

Zigomute já sabendo do que se trata, saindo vagarosamente pela abertura da estátua:

--Quem me faz a visita a essa hora?

--Num é visita não. Zé talo pediu pra nois trazer esse porco pro senhor cuidar dele.

--Sim...Zé talo... Eu estimo.

--O senhor quarteia o porco em quanto tempo?

Zigomute interrompe:

--Amarra o porco aí no pé dessa placa e vamo entrando...

João Monte e pedro bandeira obedecem a ordem, mas exitam antes de entrar na casa do Zigomute.





CAP 02 : A Mórula



A percepção popular de alguns personagens oeirenses se dá de maneira repentina. Tão repentina quanto seu esquecimento. Muitos surgem ao amanhecer e ao final do dia já não entrariam mais nos livros sobre a vivida Oeiras. Alguns deles superam a barreira do tempo, atravessam gerações ,dão o ar de suas graças em livros e em contos populares. Outros camuflam-se no padrão popular obtendo serventia e uma função dentro da sociedade.

Zigomute, como tantos personagens que por ali sempre passam, nasceu de “ninguém-sabe-quem”, “ninguém-sabe-onde” e sem sobrenome. E como tantos outros um dia apresentou-se no cotidiano de temerosos cidadãos de uma velha e vaidosa cidade. Morando no imponente Morro do Leme com vista escolhida pela natureza, ouve todos os ruídos da cidade, seus sorrisos, suas batalhas, seus gemidos e seu choro. Sua excentricidade é temperada com uma moradia que foge aos padrões das cidades com suas favelas, arquitetura moderna e suas ruínas. Dentro da estátua ganhou o espaço que precisava, o isolamento e a proteção divina de uma santa que apadrinha a cidade de Oeiras.
Talvez por morar em um lugar tão alto, Zigomute mostra-se com uma visão panorâmica em qualquer coisa que faça ou fale. Não busca agradecimentos, aprovação, amigos ou inimigos, parentes ou aderentes, veste-se a caráter com uma calça sempre bem suja, uma sandália de dedo, poucas vezes usa camisa e carrega consigo uma capanga. Fala o mínimo possível, não busca respostas em ninguém, não por não ter perguntas a fazer, mas sim por decifrar em seu profundo silencio todos os questionamentos de sua presente vida. O silêncio é quebrado no momento exato em que lhe convém falar.

Seu ofício é um dos mais antigos da história humana. Nunca ofertou seus serviços, mas sempre teve clientes. Vez ou outra recusa algum serviço afirmando que existem dias certos de morrer, nesses dias nenhum animal é abatido por ele. E sempre abate apenas uma “criação” por dia. Não tente entender os métodos dele de percepção de quais são esses dias, muitas serão as hipótese e poucas serão suas conclusões. Zigomute pode passar dias isolado em seu morro até que alguém lhe venha com algum serviço, tal serviço é contratado para ser feito na hora e Zigomute o faz com a frieza que o ofício exige. Zigomute, quando elogiado por fazer o trabalho com rapidez e eficiência , prontamente responde:

--"Não sou bom em matar “criações”, é você que é incapaz de fazer o que faço."
Tudo isso, ele diz com uma serenidade e um tom de voz que não ofende ninguém. Quando fala, a sabedoria escorre pelo canto da boca. Tem para mostrar a generosidade que cada um merece, ele olha dentro dos seus olhos sem nada a temer, sem uma só palavra ele manifesta o que quer dizer.








CAP 01 : Zigomute : A lenda recomeça aqui



Acompanhe aqui a história de um personagem que se perdeu no imaginário popular oeirense e agora apareceu para algumas pessoas escolhidas contando sua história, com o desejo de reavivá-lo e remontar aos tempos gloriosos em que as mães chantageavam seus filhos na hora da refeição ameaçando-os em chamar o zigomute, caso exitasse em deixar um grão de arroz que fosse sobrando dentro do prato.




Imagem:
ALDO BONADEI -1962